

O celular virou câmera, vitrine, canal de atendimento e ferramenta de vendas. Nas redes sociais, empresas disputam diariamente a atenção de consumidores, enquanto artistas e produtores utilizam vídeos e outros formatos para divulgar seus trabalhos e alcançar novos públicos. Por trás desse movimento, um mercado profissional também ganhou espaço.
Social medias, gestores de tráfego, videomakers, designers, copywriters e outros especialistas passaram a fazer parte da rotina de empresas que precisam produzir conteúdo, divulgar produtos e serviços e estabelecer relacionamento com consumidores no ambiente digital.
A mudança não se resume à criação de novas funções. Ela também alterou a forma de trabalhar. Muitos desses profissionais atuam como autônomos, freelancers ou prestadores de serviço, atendendo diferentes clientes e, em alguns casos, trabalhando de maneira remota.
Para pequenos e médios negócios, a necessidade de manter uma presença constante nas plataformas digitais ampliou a procura por profissionais capazes de combinar conhecimento técnico, criatividade e estratégia.
Conteúdo deixou de ser apenas presença nas redes
Durante um período, manter um perfil nas redes sociais significava, para muitas empresas, publicar eventualmente uma foto ou uma oferta. A lógica mudou com o aumento da concorrência pela atenção do público.
A produção de conteúdo passou a exigir planejamento e, principalmente, uma compreensão maior sobre quem está do outro lado da tela.
Dalisson Henrique, videomaker que atua com produção de conteúdo institucional para empresas em Belo Horizonte, percebe essa mudança entre os empresários. Segundo ele, uma parcela já compreendeu a importância de investir em materiais de qualidade, enquanto outra ainda demonstra resistência.
“Existe uma parcela que percebeu a importância de ter conteúdos de qualidade. É aí que esses empresários e comércios se destacam no meio digital. Mas existe uma outra parcela que ainda é muito resistente, não quer investir e acha tudo caro”, afirma.
Nesse cenário, o trabalho do videomaker também ganhou uma dimensão estratégica. Para Dalisson, a diferença não está apenas em saber operar uma câmera ou editar imagens, mas em transformar o material produzido em uma narrativa capaz de criar conexão com o público.
“A diferença da entrega de um resultado que gera valor é aquele videomaker que faz de um vídeo uma história, que gera conexão e valor do produto ou empresa para o futuro consumidor”, explica.
A produção audiovisual, assim, deixou de estar restrita a campanhas específicas. Vídeos passaram a integrar a comunicação cotidiana de empresas, utilizados para apresentar produtos, divulgar serviços e aproximar marcas de potenciais consumidores.
Eventos também se tornaram fonte de conteúdo
A transformação chegou ainda ao mercado de eventos. Shows, festas e outras produções presenciais passaram a ter uma segunda vida nas redes sociais por meio de vídeos publicados durante ou depois das apresentações.
Kaik Lage, videomaker especializado em cobertura de eventos e shows que atua em toda a região metropolitana de Belo Horizonte, afirma que o trabalho exige atenção não apenas ao que acontece no palco ou no espaço do evento, mas também ao público que receberá aquele conteúdo.
“Você realmente tem que entender qual é o público. O que for tocado, cantado ou até mesmo o que for gerado no evento vai trazer oportunidades boas para se ter um vídeo que vai trazer um bom desempenho para as redes sociais também”, afirma.
A rotina também exige que o profissional tenha clareza sobre a entrega. Segundo Kaik, compreender o que o evento pode oferecer em termos de imagens e desenvolver continuamente o próprio olhar são partes importantes do trabalho.
“É preciso ter clareza naquilo que você realmente entrega, saber entender o que o evento vai te trazer de material para a cobertura, procurar sempre melhorar seu olhar para os eventos e realmente saber o que a pessoa espera que você entregue”, destaca.
Para ele, a importância desse trabalho ultrapassa a divulgação imediata. O conteúdo produzido pode ajudar a ampliar o alcance de eventos e artistas, inclusive para pessoas que vivem em outras cidades.
“Hoje é uma das maiores oportunidades de público e de se ter artistas na sua cidade em várias ocasiões. Isso se torna muito importante porque agrega na parte da cultura da cidade e faz o público reconhecer esses eventos na sua cidade ou até mesmo em outras cidades próximas”, afirma.
A relação com a música também foi determinante para a escolha profissional de Kaik. O contato com artistas e outras pessoas envolvidas nos eventos, segundo ele, ajudou a definir o caminho que queria seguir.
“Hoje vai muito pelo amor que tenho por música, por conhecer pessoas e ver o quanto aquilo agrega não só na minha vida, mas na vida delas. Fui entendendo principalmente o propósito do que eu gravo: se eu assistiria depois ou se aquilo me traria vontade de assistir. Esse foi o ponto-chave de tudo”, conta.
Da publicidade tradicional ao tráfego pago
Enquanto o audiovisual ganhou espaço na produção de conteúdo, a publicidade digital abriu uma frente específica de atuação. O gestor de tráfego trabalha no planejamento, configuração, acompanhamento e otimização de campanhas em plataformas de anúncios.
A possibilidade de segmentar públicos e acompanhar os resultados das campanhas tornou esse profissional uma peça cada vez mais presente na estratégia de empresas que utilizam a internet para buscar consumidores.
Em Sete Lagoas e região, o gestor de tráfego Gustavo Morato atende empresas que precisam acelerar a circulação de seus produtos. Segundo ele, as lojas de veículos estão entre os negócios que mais procuram esse tipo de serviço.
“São empresas que precisam ter um giro rápido no mercado e não podem depender apenas do cliente de porta. Um exemplo são as lojas de carros, que são as que mais procuram. Cerca de 70% dos meus clientes são agências de veículos, de carros ou motos”, relata.
Para Morato, os empresários passaram a reconhecer melhor o potencial da publicidade online, mas a atuação de profissionais sem preparo também trouxe dificuldades para o setor.
“O grande problema do mercado são os maus profissionais que, às vezes, prometem muitas coisas para os empresários e acabam não cumprindo. Isso faz o nosso serviço se desvalorizar e, muitas vezes, para o empresário voltar a acreditar no poder dos anúncios online é um pouco mais difícil. Eles ficam receosos”, afirma.
Impulsionar não significa ter estratégia
As próprias plataformas tornaram mais simples a criação de anúncios. Um empresário pode, em poucos passos, colocar dinheiro em uma publicação. Para Morato, porém, essa facilidade pode criar a impressão de que uma campanha profissional é apenas uma questão de apertar alguns botões.
Segundo o gestor, ainda há quem considere secundários aspectos como criativos, segmentação e estratégia.
“Na prática, quando você tem estratégia, conhecimento e funil, acaba diminuindo o custo para o empresário, alcançando pessoas qualificadas e gerando resultados escaláveis”, explica.
Morato conta que já atendeu um empresário que, sem saber utilizar corretamente as plataformas, gastou em 48 horas uma verba que havia sido planejada para um mês. O episódio, segundo ele, serviu para mostrar ao cliente a importância de contar com conhecimento especializado na administração das campanhas.
Mas a atuação do gestor, na avaliação do profissional, não deve terminar na configuração dos anúncios. É necessário compreender o negócio, o público e a jornada percorrida pelo consumidor até a compra.
“O gestor precisa compreender a estratégia, o público, a oferta, os criativos, a comunicação e a jornada do cliente. Inclusive, ter conhecimento sobre criativos é fundamental, porque muitas vezes o problema não está na campanha, mas na mensagem ou na forma como o produto está sendo apresentado”, afirma.
Essa visão mais abrangente também muda o papel atribuído ao profissional dentro da empresa.
“O gestor de tráfego gera muito mais valor quando consegue identificar os pontos frágeis da empresa, propor ideias e soluções e trabalhar em conjunto com o cliente para melhorar o processo comercial e, consequentemente, os resultados”, conclui.
Um mercado que também atrai autônomos
Nem todo profissional do digital está inserido em uma estrutura tradicional de emprego. A própria dinâmica do setor favorece a atuação como freelancer, prestador de serviço ou por meio de pequenas agências.
Um profissional pode atender simultaneamente empresas de diferentes segmentos e, dependendo da função, realizar parte do trabalho à distância. A flexibilidade, porém, vem acompanhada de outras responsabilidades: prospectar clientes, negociar contratos, organizar a rotina e administrar a própria atividade profissional.
A facilidade de acesso às ferramentas também aumentou a concorrência. No audiovisual, celulares e equipamentos mais acessíveis permitem que mais pessoas produzam vídeos. Na publicidade, as próprias plataformas oferecem ferramentas simplificadas para criação de campanhas.
Para os profissionais ouvidos pela reportagem, entretanto, conhecer a ferramenta é apenas o ponto de partida. O diferencial está na capacidade de compreender o objetivo de cada trabalho e encontrar maneiras de transformar recursos digitais em resultados.
Inteligência artificial entra na rotina
A inteligência artificial acrescentou mais uma camada a esse cenário. Ferramentas capazes de auxiliar na produção de textos, criação de ideias, edição, geração de imagens e análise de informações passaram a fazer parte de diferentes etapas do trabalho digital.
No audiovisual, a tecnologia também desperta discussões sobre o futuro da profissão. Para Dalisson Henrique, porém, a IA pode ser incorporada à rotina como instrumento de apoio.
“Acredito que seja mais uma ferramenta para nos ajudar”, avalia.
A presença dessas tecnologias reforça uma mudança já observada no mercado: quanto mais ferramentas automatizam tarefas operacionais, maior tende a ser a importância de competências como criatividade, visão estratégica, interpretação de dados, conhecimento do público e capacidade de solucionar problemas.
Profissões que acompanham uma mudança maior
É difícil separar o crescimento dessas atividades da própria transformação na relação entre empresas e consumidores.
A internet deixou de ser apenas um espaço complementar para divulgação. Para muitos negócios, tornou-se um ambiente onde o consumidor conhece produtos, acompanha marcas, recebe ofertas e inicia uma jornada de compra.
Esse processo abriu espaço para uma cadeia de profissionais especializados em diferentes etapas dessa comunicação. Há quem planeje o conteúdo, quem produza vídeos, quem cuide dos anúncios e quem acompanhe os resultados.
As funções também continuam mudando. Ferramentas novas surgem, plataformas alteram seus formatos e o comportamento do público se transforma rapidamente. Para quem trabalha nesse mercado, acompanhar essas mudanças passou a fazer parte da própria profissão.
No fim, a expansão do digital não criou apenas novas maneiras de divulgar produtos e serviços. Criou também uma demanda por pessoas capazes de entender como conteúdo, tecnologia, publicidade e comportamento do consumidor se conectam.
É nesse espaço que social medias, gestores de tráfego, videomakers e outros profissionais encontraram um mercado em expansão e que ainda continua em transformação.
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